quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Análise da pintura de Marc Chagall – Paris through the Window (Paris através da Janela)

Marc Chagall - Paris through the Window – 1913 – óleo sobre tela – 135,8 x 141,4 cm - Solomon R. Guggenheim Museum, New York, USA



Análise da pintura de Marc Chagall – Paris through the Window (Paris através da Janela)


Depois que Marc Chagall se mudou da Rússia para Paris, em 1910, suas pinturas rapidamente refletiram os mais recentes estilos de vanguarda. Em Paris através da Janela, transparece a proximidade de Chagall com o cubismo órfico de Robert Delaunay, nos planos semitransparentes sobrepostos de cores vivas no céu acima da cidade. A Torre Eiffel, que aparece na paisagem urbana, também era um tema frequente no trabalho de Delaunay. Para os dois artistas, ela serviu de metáfora para Paris e talvez para a própria modernidade.

O paraquedista de Chagall também pode se referir à experiência contemporânea, pois o primeiro salto bem-sucedido da Torre Eifell ocorreu em 1911. Parece provável que o artista também incluiu esse homem, caindo do céu em Paris, como uma referência ao salto de fé que ele acabou de dar com seu novo estilo de vida ocidental e as novas formas de arte contemporânea que ele está adotando agora.
No centro da pintura há um gato amarelo com rosto humano. Algumas pessoas pensavam nos gatos como pecadores que já faleceram, mas voltaram a esta vida através da forma felina para assombrar os membros da família.

Outras formas sugerem Vitebsk, a cidade natal do artista. O personagem dessa pintura foi interpretado como o artista que olha ao oeste para sua nova casa na França e ao leste para a Rússia. Também simbolizando essa dicotomia, há um casal separado, sob a Torre Eifell. A nostalgia do famoso artista por sua terra natal, a Rússia, também é representada pelo trem de cabeça para baixo à esquerda do gato no centro da pintura. Isso representava sua incapacidade de voltar para casa. Chagall, no entanto, recusou interpretações literais de suas pinturas, e talvez seja melhor pensar nelas como evocações líricas, semelhantes à poesia plástica alusiva dos amigos do artista Blaise Cendrars (que nomeou essa tela) e Guillaume Apollinaire.

O homem de duas caras em Paris através da janela permeia figurativamente entre dois mundos: interior versus espaço exterior, passado e presente, imaginário e real. Em pinturas como essas, fica claro que o artista preferia a vida da mente, da memória e do simbolismo mágico à representação realista.

Marc Chagall (Vitebsk 1887–1985 Saint-Paul-de-Vence) foi um artista prolífico, cuja carreira se estendeu por muitas décadas. Ele trabalhou em muitos tipos de mídias: desenho, pintura, mídia impressa e vitrais. Chagall participou dos movimentos modernos do pós-impressionismo incluindo surrealismo e expressionismo. Nascido perto da aldeia de Vitebsk, na atual Bielorrússia, Chagall mudou-se para Paris em 1910 permanecendo lá até 1914 para desenvolver seu estilo artístico, retornando à Russia por sentir saudades de sua noiva Bella, com quem se casou. Em 1923 eles se mudaram novamente para a França, para escapar das dificuldades da vida soviética que se seguiram à I Guerra Mundial e à Revolução de Outubro. Em 1941, mudou-se para os Estados Unidos, escapando da Segunda Guerra Mundial e ali permaneceu até 1948, retornando para a França.

O início da vida de Chagall deixou-o com uma memória visual poderosa e uma inteligência pictórica. Depois de viver na França e experimentar a atmosfera de liberdade artística, ele criou uma nova realidade, que se baseou em ambos os mundos internos e externos. Mas foram as imagens e memórias de seus primeiros anos em Belarus, na Russia, que sustentaram a sua arte por mais de 70 anos. Há certos elementos em sua arte que se mantiveram permanentes e são vistos ao longo de sua carreira. Um deles foi a sua escolha dos temas e a forma como eles foram retratados. O elemento mais constante, obviamente, é o seu dom para a felicidade e sua compaixão instintiva, que mesmo nos assuntos mais sérios o impediam de dramatizar.

Uma dimensão simbólica sempre esteve presente nos temas de Chagall. Sem dúvida, esta abordagem ajudou Chagall a atingir a popularidade que seu trabalho desfrutava na época, mas ao mesmo tempo o desejo de ser compreensível emprestou às pinturas um toque de romantismo que parecia um pouco fora de época. Através de sua linguagem poética altamente original ele foi capaz de criar um novo universo a partir das três culturas diferentes que ele havia assimilado. Flores e animais são uma presença constante em suas pinturas, habilitando-o por um lado a superar a interdição judaica de representação humana, enquanto por outro lado formando metáforas para um mundo possível, em que todos os seres vivos possam viver em paz como na cultura medieval russa. Sua arte constitui uma espécie de mixagem entre culturas e tradições. A chave fundamental para sua modernidade reside no seu desejo de transformar uma obra de arte em uma linguagem capaz de fazer perguntas que não foram ainda respondidas pela humanidade.

Em sua biografia de Chagall, Franz Meyer cita um aforismo que resume dois artistas: "Pablo Picasso estava para o triunfo do intelecto, Chagall para a glória do coração."

"Se eu criar com o meu coração quase todas as minhas intenções permanecem. Se for com a cabeça, quase nada. Um artista não deve ter medo de ser ele mesmo, de expressar apenas a si mesmo. Se ele é absolutamente e inteiramente sincero, o que ele diz e faz, será aceitável para os outros." – Marc Chagall


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