terça-feira, 2 de junho de 2015

Gravuras: o que são, os tipos e exemplos

Edvard Munch – The Kiss – 1902 – xilogravura - 47 × 77 cm – The Munch Museum


Gravuras: o que são, os tipos e exemplos


Jost Amman - Block Cutter at Work – 1568 - xilogravura


Gravura é uma imagem obtida através da impressão a partir de uma matriz artesanal. A gravura é um múltiplo. As gravuras têm valor artístico por serem totalmente originais e realizadas artesanalmente. Foram realizadas por grandes artistas desde o final do século XV. O material da matriz é o que classifica o tipo da gravura. O resultado das técnicas de impressão é a transferência da imagem da matriz para outro tipo de suporte, como papel ou tecido. Cada gravura é numerada e assinada uma a uma, compondo uma edição restrita.


Rhinoceros - Albrecht Durer – 1515 – xilogravura - British Museum, London


Cada gravura é única em si e é uma obra original assinada. O fato de haver várias unidades da mesma imagem, nada tem a ver com a questão de sua originalidade. Ao contrário disso, a arte da gravura está justamente na perícia da reprodução da imagem e na fidelidade entre as unidades, por ser um processo totalmente artesanal.
Além do trabalho do artista, há também o do impressor. É ele quem domina os segredos do processamento da matriz e da sua reprodução fiel. Há artistas impressores também, mas em geral, a gravura é fruto de um trabalho em conjunto do artista e do impressor.


Rembrandt - The three trees – 1643 - gravura a água forte


As gravuras são assinadas, numeradas e datadas pelo próprio artista. Em geral a numeração aparece no rodapé da gravura, da seguinte forma: 1/100, por exemplo, indicando o número do exemplar (1) e quantas cópias foram produzidas daquela imagem (100). Grandes edições não chegam a 300 cópias, mas em geral o número é muito menor, devido ao desgaste da matriz durante a tiragem. Quanto menor for o numero do exemplar, mais valorizada é a gravura, pois as primeiras a serem feitas sairam de uma matriz menos desgastada. Muitas vezes as 2 ou 3 primeiras são reservadas para o artista, recebendo a sigla P.A. (Prova do Artista).



Esquerda:  Francisco Goya y Lucientes – “Que sacrificio!” – água forte e aquatinta
Direita:  Francisco Goya y Lucientes – “El si pronuncian y la mano alargan Al primero que llega” -  água forte e aquatinta

A matriz da gravura recebe um processo de incisão (riscos ou gravações na superfície) formando assim um alto ou baixo relevo, onde a tinta será espalhada, obtendo-se assim dois possíveis tipos de gravura: em encavo (o sulco recebe a tinta e aparece como positivo no trabalho final) ou em relevo (a superfície em alto relevo é que recebe a tinta, e o sulco aparece em negativo, sem a presença da tinta).
São considerados precursores da gravura os artistas dos séculos XV a XVIII (até 1830) que iniciaram a arte da gravura dentro da tradição ocidental. As principais técnicas utilizadas nesse período foram a xilogravura, a gravura em metal e água-forte. Raramente as gravuras eram feitas em papel, mas sim em tecido. Muitos artistas europeus como Albrecht Dürer, Rembrandt e Francisco Goya trabalharam com gravura. A fama internacional desses artistas, na época em que viveram, veio principalmente de suas gravuras, que eram mais populares que suas pinturas. Hoje em dia acontece o oposto: museus e galerias popularizaram suas pinturas enquanto as gravuras, por razões de conservação, são raramente exibidas.


Palácio de São Cristóvão, residencia dos Imperadores do Brasil - Jean-Baptiste Debret – século XIX – litogravura


Na atualidade em que a tecnologia é usada para tudo, a gravura resgata o bom gosto pelo trabalho artístico, feito manualmente, sem mecanização e em um processo milenar. A gravura é uma forma acessível de ter adquirir uma obra original de um grande artista.


M. C. Escher – Tower of Babel – 1928 – xilogravura - 62.1 cm × 38.6 cm 


Tipos de gravura:


The Great Wave off Kanagawa - Katsushika Hokusai - c. 1829–32 – xilogravura colorida - 25.7 cm × 37.8 cm

Xilogravura:

A Xilogravura é a técnica mais antiga para produzir gravuras, e seus princípios são muito simples. O artista retira de uma superfície plana de madeira (a matriz), com o auxílio de ferramentas de corte e entalhe (goivas) as partes que ele não quer que tenham cor na gravura. Após aplicar tinta na superfície, coloca um papel sobre a mesma. Ao aplicar pressão (com uma prensa) sobre essa folha a imagem é transferida para o papel. No fim do século XV, a xilogravura começou a ser usada em ilustrações para livros (iluminuras) e para cartas de baralhos.


Oswaldo Goeldi – Chuva – c. 1957 - xilogravura a cores - 22 x 29,5 cm - Coleção Frederico Mendes de Moraes


J.Borges - Cordel - O casado namorador - Xilogravura - 50x65

Linoleogravura:

Esta técnica assemelha-se ao entalhe da Xilogravura, no entanto, ao invés de madeira, a matriz é de material sintético - placas de borracha, chamadas "linóleo". Esta técnica é mais recente do que a Xilogravura devido ao material de sua matriz, e foi muito utilizada pelos artistas modernos, como Picasso por exemplo.


Pablo Picasso - Still Life under the Lamp – 1962 – linoleogravura © Estate of the artist


Gravura em metal:

A técnica da Gravura em metal começou a ser utilizada na Europa no século XV. As matrizes podem ser feitas a partir de placas de cobre, zinco, alumínio ou latão. Estas são gravadas com incisão direta ou pelo uso de banhos de ácido. Água-forte, água-tinta, ponta seca são as técnicas mais usuais. A matriz recebe a tinta e uma prensa é utilizada para transferir a imagem para o papel.
A gravura em metal era parte da arte do ourives por toda a Idade Média e a ideia de imprimir a gravura em metal no papel veio da possibilidade de usá-la como meio de registrar os desenhos que eram vendidos. A gravura em metal é uma das mais antigas técnicas de gravura. Existem obras nesta técnica datadas de 1500, produzidas por vários gênios da Renascença, como o alemão Albrecht Dürer.

Edward Hopper - Night on the El Train – 1918 – gravura em metal 


Uma maneira de fazer uma gravura em metal é com ferramentas, como a ponta seca, um instrumento de metal semelhante a uma grande agulha que serve de "caneta ou lápis". A ponta seca risca a chapa, que tem a superfície polida, e esses traços formam sulcos, micro concavidades, de modo a reterem a tinta, que será transferida por meio de uma grande pressão, ao passar por uma prensa de cilindro conhecida como prensa calcográfica, imprimindo assim, a imagem no papel. A impressão da imagem gravada em encavo baseia-se na retirada da tinta que se encontra nos sulcos gravados, o que exige uma considerável pressão mecânica e portanto equipamento adequado, que difere do tipográfico ou da impressão manual, empregada na xilogravura. Além de ferir a chapa de cobre com a ponta seca, obtendo o desenho, a chapa também pode receber outras ferramentas diretas, como o buril e o roulette.


Evandro Carlos Jardim - A tarde a sombra – 1976 - água-forte e água-tinta - 29,1 X 42,8


Outras maneiras de fazer gravura em metal são água-forte e água-tinta , os produtos químicos conhecidos por mordentes (ácido nítrico , percloreto de ferro etc.) que atacam as áreas da matriz que não foram isoladas com verniz, criando assim outro tipo de concavidades, e consequentemente, efeitos visuais. Desta forma, o artista obtém gradações de tom e uma infinidade de texturas visuais. Consegue-se uma gama de tons que vai do mais claro, até o mais profundo escuro. Estes procedimentos podem ser usados em conjunto.


M. C. Escher – Hand with Reflecting Sphere - 1935 – litogravura - 31.8 cm × 21.3 cm 

Litografia ou litogravura:

A técnica da Litografia parte do princípio químico que água e gordura se repelem. As imagens são desenhadas com material gorduroso sobre pedra calcária e com a aplicação de ácido sobre a mesma, a imagem é gravada. Assim como a gravura em metal, essa técnica também necessita de uma prensa para transferir para o papel a imagem gravada na pedra.


Roy Lichtenstein - Girl with Hair Ribbon – 1965 – litogravura


Ao contrário das outras técnicas da gravura, a Litografia é planográfica, ou seja, o desenho é feito através do acúmulo de gordura sobre a superfície da matriz, e não através de fendas e sulcos na matriz, como na xilogravura e na gravura em metal.


Henri de Toulouse-Lautrec  - Jane Avril – 1893 - litogravura impressa em 5 cores - 129.1 x 93.5 cm


A Litografia foi usada extensivamente nos primórdios da imprensa moderna no século XIX para impressão de toda sorte de documentos, rótulos, cartazes, mapas, jornais, dentre outros, além de possibilitar uma nova técnica expressiva para os artistas. Pode ser impressa em plástico, madeira, tecido e papel. Sabe-se que o primeiro pintor que utilizou com sucesso a técnica de litografia foi Goya, em sua série Touradas, de 1825. Este técnica atingiu seu apogeu nas últimas décadas do século XIX, quando diversos autores franceses como Gustave Doré, Renoir, Cézanne, Toulouse-Lautrec, Bonnard, dentre outros, promoveram uma renovação da litografia a cores.


Henri de Toulouse Lautrec - La Vache Enragee – 1930 - litogravura


A técnica da litografia pode ser dividida em quatro etapas básicas: Limpeza da matriz, para apagar a imagem anterior desenhada na pedra, para que não haja interferências no seu desenho original. A segunda etapa é desenhar sobre a pedra com materiais ricos em gordura, mas antes é necessário traçar uma margem de tamanho variado, com goma arábica. Uma vez a goma espalhada na pedra, a área atingida não receberá gordura. Aqui a criatividade do artista atua, além dos métodos tradicionais de desenho sobre pedra, pode-se usar lâminas e pontas-secas para adicionar textura, marcas com papel carbono, aguada, entre outros. A terceira etapa é o entintamento, em processos que fixam a gordura na superfície da pedra, evitando que esta se espalhe pelas áreas brancas, descaracterizando o desenho. A última etapa é a impressão, as primeiras tentativas são consideradas testes. A espessura da pedra deve ser de pelo menos 5 centímetros, para evitar rachaduras. O papel é colocado sobre a pedra, de maneira alinhada. Usa-se uma prensa manual própria para a litografia que exerce forte pressão.


Alphonse Mücha – Job – 1896 – litogravura



Alphonse Mücha - F. Champenois Imprimeur-Éditeur – 1897 –litogravura


Serigrafia:

A Serigrafia começa a ser aplicada mais frequentemente por artistas na segunda metade do século XX. Como as técnicas descritas acima, também a serigrafia apresenta diversas técnicas de gravação de imagem. Uma delas é a gravação por processo fotográfico. Imagens são gravadas na tela de poliéster e com a utilização manual de um rodo com a tinta a imagem é transferida para o papel.


Victor Vasarely – Sem Título – serigrafia – 95,2 x 98,5 cm


Serigrafia ou silk-screen é um processo de impressão no qual a tinta é vazada, pela pressão de um rodo ou puxador, através de uma tela preparada. A tela (Matriz serigráfica), normalmente de poliéster ou nylon, é esticada em um bastidor (quadro) de madeira, alumínio ou aço. A "gravação" da tela se dá pelo processo de fotossensibilidade, onde a matriz preparada com uma emulsão fotossensível é colocada sobre um fotolito, sendo este conjunto matriz+fotolito colocados por sua vez sobre uma mesa de luz. Os pontos escuros do fotolito correspondem aos locais que ficarão vazados na tela, permitindo a passagem da tinta pela trama do tecido, e os pontos claros (onde a luz passará pelo fotolito atingindo a emulsão) são impermeabilizados pelo endurecimento da emulsão fotossensível que foi exposta a luz.


Carlos Scliar - Carlos Gomes – serigrafia


É utilizada na impressão em variados tipos de materiais (papel, plástico, borracha, madeira, vidro, tecido, etc.), superfícies (cilíndrica, esférica, irregular, clara, escura, opaca, brilhante, etc.), espessuras ou tamanhos, com diversos tipos de tintas ou cores.

Rubens Gerchman - Beijo X - Serigrafia - 65x90


Alguns artistas iniciaram um importante trabalho de transformar um meio mecânico, cujas qualidades gráficas se limitavam às impressões comerciais, numa importante ferramenta para desenvolver seus estilos pessoais. O sentido desse esforço inicial estendeu-se aos artistas dos anos 1950, incluindo os expressionistas abstratos e os action painters, como Jackson Pollock. Foram ressaltados, entre outros, dois pontos básicos da técnica: sua extrema adaptabilidade que permite a aplicação sobre qualquer superfície inclusive tridimensional, muito conveniente para certas tendências artísticas e suas especificidades gráficas próprias, ou seja características gráficas que apenas a serigrafia pode proporcionar.

Carybé - Os Acrobatas - Serigrafia - 70x100


Da necessidade de artistas como Rauschemberg, Rosenquist, Warhol, Lichtenstein, Vasarely, houve o desenvolvimento contemporâneo do processo em aplicações artísticas. Novos conceitos foram associados às idéias tradicionais e o estigma "comercial" da serigrafia tornou-se uma questão ultrapassada.


Yutaka Toyota - Sem título - Serigrafia - 30x30


Monotipia:

É uma técnica de gravura em que se faz apenas uma impressão, portanto não é um múltiplo, mas sim uma obra única. Esse blog possui um artigo sobre monotipia. Clique sobre o link abaixo para abrir:



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2 comentários:

  1. Gostei bastante! É esclarecedor para um principiante.Os exemplos são ótimos!

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    1. Muito obrigada Semiramis Paterno. Estamos no Facebook em www.facebook.com/arteeblog, no Twitter @arteeblog e no Instagram @arteeblog. Se puder, curta lá e compartilhe essa e outras postagens, ajudando a divulgar. Abçs

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