quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Homenagem a Tomie Ohtake - assista o vídeo

Tomie Ohtake 

Homenagem a Tomie Ohtake (Quioto, 21 de Novembro de 1913 - São Paulo, 12 de Fevereiro de 2015)

“Não gosto de coisas pequenas, nem de pintar com a ponta dos dedos. Uso o corpo todo” - Tomie Ohtake

Tomie Ohtake é considerada a “dama das artes plásticas brasileiras” pela carreira consagrada, construída ao longo dos últimos cinqüenta anos, e pelo estilo ímpar de enfrentar a obra e a vida, nas quais força e suavidade têm o mesmo significado. A fama conquistada, desde a década de 60, nunca modificou o desafio a que se propõe: o eterno reinventar.


Tomie Ohtake - Sem título - 1953 - óleo sobre tela - 54 x 65 cm


A capacidade de renovação de Tomie está expressa nas diferentes fases de sua pintura e nas suas composições de gravura e escultura. É dessa intenção intuitiva permanente que brotam o frescor e o esplendor de sua arte celebrada pela crítica e pelo público até hoje, com sua vigorosa produção recente. “Sua poética ao invés de declinar, germina em outras direções e aos 89 anos, de Tomie Ohtake pode-se dizer que o outono cede espaço à primavera”, escreve o crítico Agnaldo Farias (abril, 2003).


Tomie Ohtake - Sem Título - 1954 - óleo sobre tela
A partir de 1953, as obras começam a tomar um caminho mais abstrato. Figuras dão lugar a formas e campos de cor, organizados sobre malha geométrica. "A abstração permite uma maior liberdade para se organizar o espaço da tela", disse a artista em entrevista em 2006


Nascida no Japão (Kioto/1913), Tomie chega ao Brasil em 1934 e só começa a pintar aos 40 anos de idade, construindo uma trajetória como poucos artistas brasileiros conseguiram. Os anos 60, quando se naturalizou brasileira, foram decisivos para a sua maturação como pintora originária da abstração informal. O domínio da esfera técnica de seu trabalho foi então confluindo com sua personalidade, passando a servi-la plenamente. O controle do processo coincidiu com uma nova orientação dada progressivamente ao trabalho, segundo o qual ela foi substituindo a imaterialidade aparente de suas telas pelo estudo da relação forma-cor.


Tomie Ohtake sendo apresentada por Pietro Maria Bardi á Rainha Elisabeth II da Inglaterra no dia da inauguração do Masp (Museu de Arte de São Paulo) em 7 de Novembro de 1968, em São Paulo, Brasil


Tomie Ohtake recebendo o Prêmio Probel de Pintura no Museu de Arte Moderna de São Paulo em novembro de 1960. À direita, Ciccillo Matarazzo. Foto: Athayde de Barros


Entre formas ovais, retangulares, cruciformes, quadradas - sugerindo a idealidade de uma figura geométrica ou de um signo qualquer – colocadas isoladamente, justapostas ou em série, ficava sempre preservada a ambigüidade perturbadora entre elas e o espaço da tela. Efeito que se obtém, por exemplo, na tensão entre a forma que se agiganta até praticamente encobrir o espaço; na maneira como este espaço insinua-se pelas frestas da forma; enfim, no confronto incessante entre esses dois termos e que se acentua, já nos anos 70, quando finalmente o espaço branco é tomado pela cor e se apresenta como forma.


A linha tubular suspensa de Tomie Ohtake na 23ª Bienal (1996). No térreo, obra de Anish Kapoor. No primeiro pavimento à esquerda, obra de Jesús Rafael Soto e ao fundo, no terceiro andar, painel de Sol Lewitt. Foto: Fernando Chaves


Tomie Ohtake - Sem título -1964 - óleo sobre tela 
No decorrer da década de 60, pinceladas gestuais passam a ser substituídas por áreas mais delimitadas. Formas retangulares e quadradas começam a ser mais frequentes em sua obra, dialogando com o abstracionismo geométrico 


A linha curva, em associação a uma refinada fatura cromática, mais difusa e “cósmica”, como a ela se refere o crítico Miguel Chaia, introduz sobretudo a partir dos anos 80, novas referências ao trabalho da artista: da alusão à natureza e suas formas orgânicas; do céu às sementes; da paisagem às frutas; do sensual ao francamente sexual. As telas, ao invés dos planos coloridos chapados, são compostas de manchas justapostas e sobrepostas, solução que as transforma em campos em transformação constante. Dos anos 90 em diante, a transparência e a profundidade se acentuam e a pintura de Tomie parece emanar do espaço sideral.


Tomie Ohtake - "Ondas" - Escultura comemorativa dos 80 anos de imigração japonesa no canteiro central da Avenida 23 de Maio, São Paulo, Brasil  (1988)


Tomie Ohtake - Sem titulo - 1991 - acrílico sobre tela
Entre o final da década de 80 e os anos 90, pinceladas e texturas voltam a ser elemento importante da produção de Tomie

A gravura é outra técnica que a artista domina desde o final dos anos 60 e que resulta também em um trabalho extremamente maduro e inovador: faz série em grandes formatos, transforma a gravura em objeto e, ainda, recentemente, produz obras que avançam de um plano ao outro, ortogonal, criando, nesta confluência de 90 graus, um espaço novo para a sua arte. Com este seu experimentalismo incomum para a técnica milenar, suas gravuras também ganharam reconhecimento internacional, desde 1972, quando foi convidada a participar da sala Grafica D’Oggi na Bienal de Veneza - exposição que contou com a presença dos mais importantes artistas do mundo, como os norte-americanos da Pop Art -, além de sua participação na Bienal de Gravura de Tóquio, em 1978, tradicional mostra internacional desta técnica.


Tomie Ohtake - Painel em tapeçaria - 1990 
Localizado no auditório Simón Bolívar do Memorial da América Latina, o painel em tapeçaria ocupa uma área total de aproximadamente 800 m². A obra foi parcialmente danificada em um incêndio ocorrido no auditório em 2013. Assim que soube dos danos, Tomie Ohtake disse que recuperaria a obra. "O grande mural é um desenho com muitas linhas que se compõem numa grande forma, atravessando como num só gesto, todo o comprimento do auditório. Ver depois de pronto um painel com aquelas dimensões, feito em tapeçaria a partir de um desenho gestual, é uma grande emoção!", afirmou a artista em depoimento publicado no livro "Integração das Artes" - Foto: Instituto Tomie Ohtake/Divulgação


Tomie Ohtake - Escultura metálica - 2004 
Localizada no interior do Auditório Ibirapuera, em São Paulo, a intervenção-escultura dialoga com a arquitetura de Oscar Niemeyer


Além da pintura e da gravura, Tomie tem realizado esculturas em grandes dimensões para espaços públicos e, desde a 23ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1995, quando teve uma sala especial de esculturas, vem expandindo sua produção tridimensional. Hoje, 27 obras públicas de sua autoria fazem parte da paisagem urbana de algumas cidades brasileiras. Em São Paulo, parte delas se tornaram marcos paulistanos, como os quatro grandes painéis da Estação Consolação do Metrô de São Paulo, a escultura em concreto armado na avenida 23 de maio e a pintura em parede cega no centro, na Ladeira da Memória.


Tomie Ohtake - Sem título - 2007


Tomie Ohtake - Sem título - 2009 
Prestes a completar 100 anos, a artista se concentra em formas circulares. A figura e o fundo se confundem


Desde a década de 60, a participação da obra de Tomie nos principais espaços da arte nacionais e internacionais se amplia permanentemente. Está presente em cinco edições da Bienal Internacional de São Paulo, conquista 28 prêmios, realiza cerca de 50 individuais e 85 coletivas, no Brasil e no exterior. No País, torna-se um fenômeno raro, alcançando uma popularidade incomum para um artista plástico cuja obra ao mesmo tempo é respaldada pelos principais críticos de arte. Um exemplo disto foi a sua marcante primeira retrospectiva realizada no Museu de Arte de São Paulo - MASP, em 1983, quando, até então, o professor Bardi nunca havia assistido, no museu que dirigia, um sucesso tão estrondoso para uma mostra individual, quando na abertura compareceram mais de 4.000 pessoas. Hoje, a relevância de Tomie no cenário das artes plásticas brasileiras reafirma-se na abertura de um centro cultural com seu nome, o Instituto Tomie Ohtake, homenagem extraordinária a um artista em franca produção.


Monumento Tomie Ohtake no Parque Municipal Roberto Mário Santini no emissário submarino (José Menino) em Santos, São Paulo – 2008 – inaugurado pelo Príncipe Naruhito do Japão


Tomie Ohtake - Sem título - 2012 
Tomie trabalha a organicidade de formas circulares buscando a essência monocromática nas cores puras

Tomie Ohtake - Sem título - 2013


Tomie Othake - painéis "Quatro estações" - na estação Consolação de metrô em São Paulo

“A obra de Tomie Ohtake, como trajetória íntegra e integral, tem enfrentado o desafio de construir um tempo reconciliado entre a sabedoria de uma tradição e a experiência visual do sujeito moderno. Sua obra parece buscar em nosso olhar um haicai perdido”, escreve o crítico Paulo Herkenhoff, curador do MoMA Museum of Modern Art, Nova York (setembro, 2002).


Entrada do Instituto Tomie Ohtake - foto: ©Design&MuitoMaisARTE


Instituto Tomie Ohtake - São Paulo, Brasil - Centro cultural com salas de exposição, restaurante, livraria, loja, etc. - Arquiteto Rui Ohtake


Instituto Tomie Ohtake 










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